Quem cuida de quem cuida?
Em 8 de março comemoramos o Dia Internacional da Mulher. No próximo mês comemoraremos o dia das mães. É comum vermos homenagens que exaltam a força feminina. Mas existe uma realidade mais silenciosa, menos celebrada — e, muitas vezes, mais verdadeira: a exaustão.
A mulher contemporânea parece viver sob uma equação impossível.
Espera-se que ela seja uma profissional competente, uma mãe presente, uma parceira amorosa. Que cuide da casa, da alimentação, do corpo e da aparência. Que pratique atividade física, preserve a saúde mental, esteja emocionalmente disponível e, ainda, mantenha desejo e disposição na vida sexual.
No entanto, o dia continua tendo 24 horas.
E quando essa conta não fecha, muitas mulheres não questionam a exigência — questionam a si mesmas. Surge a sensação de insuficiência, de falha, de não estar sendo “boa o bastante”.
Mais do que imposições externas, essas exigências tendem a ser internalizadas. Ou seja, deixam de vir apenas do outro — da sociedade, da cultura, da família — e passam a habitar o mundo interno, como uma voz constante que cobra, exige e não tolera falhas.
Uma voz que diz:
“Você deveria dar conta.”
“Você precisa fazer mais.”
“Você não pode falhar.”
Essa instância psíquica, muitas vezes rígida e punitiva, sustenta um ideal de perfeição impossível de ser alcançado. E é justamente nessa distância entre o que se é e o que se acredita que deveria ser, que o sofrimento se instala.
A mulher não sofre apenas pelo excesso de tarefas, mas pelo peso de um ideal que nunca se cumpre.
E talvez essa seja uma das armadilhas mais sutis da contemporaneidade: a ideia de que é possível e necessário dar conta de tudo, e ainda assim permanecer bem.
Mas nenhuma subjetividade se sustenta sem limites.
Reconhecer a própria falta, a própria incompletude, não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, é um movimento fundamental para que o sujeito possa existir para além das exigências que o aprisionam.
Talvez, no Dia da Mulher e em breve no dia das mães, o gesto mais potente não seja reforçar a ideia de força a qualquer custo.
Mas abrir espaço para uma pergunta mais honesta:
a quem serve esse ideal de mulher que dá conta de tudo?
E, principalmente:
o que acontece com aquela que, simplesmente, não consegue — e nem deveria conseguir?
Porque sustentar o impossível não é força.
É sofrimento.
E reconhecer isso pode ser, paradoxalmente, o primeiro passo em direção a uma vida mais possível. 🌷