Corpo perfeito e insatisfação: por que nunca é suficiente?
“Você não odeia o seu corpo.
Você odeia a promessa que fizeram pra ele.”
Pode soar estranho à primeira vista, mas faz muito sentido quando a gente para para pensar.
Desde cedo, aprendemos — de forma direta ou sutil — que existe um corpo ideal. Um corpo que seria mais bonito, mais desejado, mais aceito. E, junto com essa imagem, vem uma promessa silenciosa:
quando você chegar lá, algo dentro de você finalmente vai se resolver.
Mais autoestima.
Mais segurança.
Mais amor.
Mais paz.
Só que, na prática, não é isso que acontece.
Você muda o corpo… e o incômodo continua.
Você melhora a aparência… e a comparação não para.
Você chega mais perto do ideal… e ele simplesmente muda.
É aqui que a reflexão de Jacques Lacan ajuda a entender o que está em jogo: o problema nunca foi o corpo em si.
O que nos move não é só o desejo de ter um corpo diferente, mas a crença de que esse corpo vai preencher algo mais profundo — uma sensação de falta, de insuficiência, de “ainda não sou o bastante”.
E essa é a parte difícil de aceitar:
nenhum corpo resolve isso.
Porque essa falta não é física.
Ela não aparece no espelho.
E, por isso mesmo, não pode ser corrigida por ele.
O sofrimento começa quando a gente entra numa perseguição sem fim: tentando ajustar o corpo para alcançar uma sensação interna que não depende dele.
Talvez a virada não esteja em gostar do corpo o tempo todo, nem em abandonar completamente o cuidado com ele.
Mas em questionar a promessa que nos fizeram.
E se a paz que você procura não estiver no “depois” do corpo perfeito?
E se ela começar justamente no momento em que você para de se perseguir?